quinta-feira, março 08, 2007

Memórias

Não sei como é que a minha mãe soube mas o meu pai estava em greve de fome, recusava-se a comer, queria ser julgado. Chamou-me à parte e explicou-me a situação:
-O teu pai está em greve de fome há vários dias temos que o convencer a comer.
Foi para a cozinha e pôs-se a fazer cozinhados apetitosos, tão bons que era preciso estar louco para não os comer.

Mas realmente o meu pai não estava bom, as saudades da família, a falta de liberdade , o desespero levou-o a usar o único poder que tinha para pressionar os nossos revolucionários, não comer, rapar fome.

Dizia ele que só custam os dois primeiros dias, a partir daí, como o cavalo do inglês,habituamo-nos. Um bem estar apodera-se do corpo, uma sensação de ter o destino nas mãos , uma paz de espírito leva-nos a sair da realidade.

Esteve treze dias a beber água sem ingerir qualquer tipo de alimento, ao 13º começou a achar que esta era uma boa maneira de sair da prisão, na horizontal. Percebeu o erro comeu um “duchesse” um bolo cheio de “chantilly” e foi parar ao hospital com uma rotura de vesícula . Dizem os médicos que não morreu por acaso.

Quando se está muito tempo sem comer não e pode comer de repente , tem que ser aos poucos.
Fica aqui o aviso para os muitos portugueses que passam fome. Quando vierem dias melhores comecem com um caldinho, uma canja é boa ideia. “Duchesses » nunca…